No fim das contas, Flores Partidas é Murray. O personagem é uma escada, serve apenas de
combustível para que as coisas ao redor ocorram. Sozinho, só nos resta observar sua
perambulação desinteressada, sua tediosa monotonia.Há vida em Don, mas é uma vida em estado de hibernação. Durante o filme, ocorrem certos
espasmos de vitalidade, e, principalmente no final, mesmo que de uma forma torta, Don
consegue esboçar atitudes que vão além da mera reação. Mas, a maior parte do tempo, Don é a
irônia ambulante, por ser constituído de irônias, não por fabricá-las.A vida se forma ao redor dele (então, no fim das contas, Flores Partidas não é Murray).
O quê seria de um Road Movie em que o piloto apenas segue uma rota pré-determinada, como que
empurrado apenas por "não ter algo melhor para fazer"¿Um filme de investigação em que o detetive encontra-se perdido e sem motivações para ir além
das meras imagens que o surpreendem, que aparecem e desaparecem de sua vista para apenas
ficarem imprimidas em uma mente confusa, que não tenta dar ordem nenhuma ao caos de
símbolos¿Um melodrama em que não há tempo de conhecer nenhum dos personagens direito, e o
protagonista não ajuda em nada tanto em relação aos outros quanto em relação a si mesmo¿Somos deixados à deriva das aparências, mergulhados na irônia (talvez a maiuor irônia seja
estarmos sentados a ver um espectador tão grande, ou maior, do que nós mesmos).
Flores partidas suga todo o romantismo das situações, sem com isso destituir a vida de
valor. Sentido é algo questionável, valor não é.Murray tem uma disciplina admirável em ser o ator inversamente oposto ao comediante genial
que esparramava-se por todas as cenas, saltando em primeiro plano com sua metralhadora de
irônias. Isso já era aparente em "Encontros e Desencontros", mas, aqui, Murray é ainda mais
"xiita", o humor que aparece no filme é geralmente externo à Don e seus atos/falas quando
geram o riso, são de modo desintencional. Don não está para brincadeiras, aliás, ele não
está nem aí.As reações de Murray provocam o riso mesmo quando são as mais óbvias, e neste momento é
imprescindível dar valor à capacidade de Jarmusch de desaparecer, deixando que todos esses
ínfimos detalhes, esses rascunhos de expressões, tomem proporções enormes, subliminarmente.
Anti-Road Movie. Anti-Melodrama. Anti-Romance. Anti-Comédia...Jarmusch sabe que ser anti tudo resulta em ser um grande chato, e não evita (não pode ou não
quer) estes momentos. A genialidade do sujeito está em nunca abandonar a possibilidade de
que algo aconteça, de que o nada soluce alguma forma, algum momento, de que algo sublime
possa se formar de uma paisagem do interior ou de um quarto de hotel, ou de uma rua comum e
um restaurante simples. Se formar talvez nem seja o caso, mas, ao menos deixar-se visualizar
(ou dar a entender que esteve lá), por um milésimo de segundo que seja.
"Flores Partidas" parece concebido do mesmo modo que o plano de Winston (e o filme pode
muito bem ser uma desculpa para uma introdução à música do país deste), algo planejado e
calculado previamente até os últimos detalhes, porém executado por DOn de uma maneira
frouxa, comtemplativa, sabendo onde é a próxima parada mas sem saber ao certo o que irá
encontrar, e como proceder.O gênero, enfim, de "Flores Partidas" é a aventura.A aventura é deixar que a vida oriente o filme, ou o desoriente (o que é ainda melhor).
combustível para que as coisas ao redor ocorram. Sozinho, só nos resta observar sua
perambulação desinteressada, sua tediosa monotonia.Há vida em Don, mas é uma vida em estado de hibernação. Durante o filme, ocorrem certos
espasmos de vitalidade, e, principalmente no final, mesmo que de uma forma torta, Don
consegue esboçar atitudes que vão além da mera reação. Mas, a maior parte do tempo, Don é a
irônia ambulante, por ser constituído de irônias, não por fabricá-las.A vida se forma ao redor dele (então, no fim das contas, Flores Partidas não é Murray).
O quê seria de um Road Movie em que o piloto apenas segue uma rota pré-determinada, como que
empurrado apenas por "não ter algo melhor para fazer"¿Um filme de investigação em que o detetive encontra-se perdido e sem motivações para ir além
das meras imagens que o surpreendem, que aparecem e desaparecem de sua vista para apenas
ficarem imprimidas em uma mente confusa, que não tenta dar ordem nenhuma ao caos de
símbolos¿Um melodrama em que não há tempo de conhecer nenhum dos personagens direito, e o
protagonista não ajuda em nada tanto em relação aos outros quanto em relação a si mesmo¿Somos deixados à deriva das aparências, mergulhados na irônia (talvez a maiuor irônia seja
estarmos sentados a ver um espectador tão grande, ou maior, do que nós mesmos).
Flores partidas suga todo o romantismo das situações, sem com isso destituir a vida de
valor. Sentido é algo questionável, valor não é.Murray tem uma disciplina admirável em ser o ator inversamente oposto ao comediante genial
que esparramava-se por todas as cenas, saltando em primeiro plano com sua metralhadora de
irônias. Isso já era aparente em "Encontros e Desencontros", mas, aqui, Murray é ainda mais
"xiita", o humor que aparece no filme é geralmente externo à Don e seus atos/falas quando
geram o riso, são de modo desintencional. Don não está para brincadeiras, aliás, ele não
está nem aí.As reações de Murray provocam o riso mesmo quando são as mais óbvias, e neste momento é
imprescindível dar valor à capacidade de Jarmusch de desaparecer, deixando que todos esses
ínfimos detalhes, esses rascunhos de expressões, tomem proporções enormes, subliminarmente.
Anti-Road Movie. Anti-Melodrama. Anti-Romance. Anti-Comédia...Jarmusch sabe que ser anti tudo resulta em ser um grande chato, e não evita (não pode ou não
quer) estes momentos. A genialidade do sujeito está em nunca abandonar a possibilidade de
que algo aconteça, de que o nada soluce alguma forma, algum momento, de que algo sublime
possa se formar de uma paisagem do interior ou de um quarto de hotel, ou de uma rua comum e
um restaurante simples. Se formar talvez nem seja o caso, mas, ao menos deixar-se visualizar
(ou dar a entender que esteve lá), por um milésimo de segundo que seja.
"Flores Partidas" parece concebido do mesmo modo que o plano de Winston (e o filme pode
muito bem ser uma desculpa para uma introdução à música do país deste), algo planejado e
calculado previamente até os últimos detalhes, porém executado por DOn de uma maneira
frouxa, comtemplativa, sabendo onde é a próxima parada mas sem saber ao certo o que irá
encontrar, e como proceder.O gênero, enfim, de "Flores Partidas" é a aventura.A aventura é deixar que a vida oriente o filme, ou o desoriente (o que é ainda melhor).
